
Solidão no mundo: por que conexão importa tanto quanto companhia
O estudo analisa a solidão em 148 países, com mais de 218 mil pessoas, mostrando que mais de 1 em cada 5 adultos relatou sentir-se só. A solidão está associada a menor bem-estar, mais emoções negativas e menor perspectiva sobre a própria vida. Fatores como saúde, emprego, educação, convivência e apoio social aparecem relacionados à experiência de solidão. O estudo também mostra que a solidão é universal, mas assume diferentes formas conforme o contexto social e econômico
Equipe Santa Conexão
19 de setembro de 2026
Morar sozinho pode ser uma escolha, uma necessidade ou simplesmente uma fase da vida. Mas uma coisa é importante lembrar: morar sozinho não é a mesma coisa que estar sozinho emocionalmente.
Uma nova pesquisa publicada em 2026 no European Journal of Epidemiology ajuda a entender melhor essa diferença. Os pesquisadores analisaram respostas de 218.048 pessoas, em 148 países, utilizando dados do Gallup World Poll de 2023 e 2024.
E o resultado chama atenção: mais de uma em cada cinco pessoas pesquisadas relatou ter sentido solidão.
Solidão não é simplesmente estar sozinho
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes da pesquisa.
Os autores diferenciam o isolamento social da solidão. Uma pessoa pode ter pouco contato social e não se sentir solitária. Da mesma forma, pode estar cercada de pessoas e ainda sentir que lhe falta uma conexão verdadeira.
Na pesquisa, a solidão foi medida a partir de uma pergunta bastante direta: se a pessoa havia experimentado o sentimento de solidão durante grande parte do dia anterior.
Ou seja, estamos falando de uma experiência subjetiva, que pode mudar ao longo do tempo.
Há dias em que a própria companhia é suficiente.
E há outros em que sentimos falta de alguém para conversar, dividir uma preocupação, tomar um café ou simplesmente perguntar:
"Como você está?"
Ter alguém com quem contar parece fazer diferença
Entre os fatores analisados, um dos mais consistentes foi aquilo que os pesquisadores chamaram de capital social.
Na prática, uma das perguntas utilizadas procurava saber se a pessoa tinha familiares ou amigos com quem pudesse contar em uma situação de dificuldade.
Pessoas que relatavam contar com redes de apoio apresentavam menor probabilidade de relatar solidão. Essa associação apareceu nos diferentes grupos econômicos e regiões analisados.
É uma constatação simples, mas poderosa.
Não significa necessariamente ter uma agenda cheia.
Pode significar ter duas ou três pessoas com quem exista confiança suficiente para pedir ajuda, compartilhar uma notícia ou simplesmente conversar.
A solidão também apareceu relacionada ao bem-estar
O estudo encontrou uma associação entre sentir solidão e apresentar avaliações mais baixas da própria vida.
Entre toda a amostra, as pessoas que relataram solidão deram, em média, uma avaliação 0,48 ponto menor para seu bem-estar atual, em uma escala de 0 a 10, quando comparadas às que não relataram solidão. Também apresentaram uma avaliação um pouco menor sobre como esperavam estar dali a cinco anos.
A pesquisa também encontrou associação entre solidão e maior frequência de emoções negativas, como preocupação e estresse.
Mas existe uma ressalva importante: o estudo mostra associações, não prova que a solidão cause diretamente esses resultados.
Como os dados são de um levantamento transversal — ou seja, pessoas diferentes foram entrevistadas em cada ano — não é possível estabelecer uma relação de causa e efeito. Os próprios autores destacam essa limitação.
E quando a vida muda?
Grandes transições podem modificar nossa rede de relações.
A aposentadoria.
Uma separação.
A perda de alguém.
Uma mudança de cidade.
Os filhos saindo de casa.
O início de uma nova fase.
De repente, lugares e horários que antes eram preenchidos por outras pessoas ficam diferentes.
É justamente nesse momento que talvez seja importante não esperar que a conexão aconteça sozinha.
Um café com um amigo.
Uma caminhada.
Uma aula.
Um grupo de leitura.
Uma conversa com um vizinho.
Um hobby.
Um passeio.
Uma viagem.
Pequenos encontros podem parecer simples, mas são oportunidades de construir vínculos.
Viver sozinho também pode ser uma experiência de liberdade
Existe outro lado que merece ser lembrado.
A pesquisa não diz que morar sozinho é um problema.
Ela estuda a solidão, e solidão não é sinônimo de vida solo.
Morar sozinho pode significar autonomia, liberdade, privacidade e a possibilidade de construir uma rotina de acordo com os próprios desejos.
O desafio está em preservar a conexão humana enquanto construímos essa autonomia.
Porque talvez a pergunta não seja:
"Como faço para não ficar sozinho?"
Mas:
"Quem faz parte da minha vida e com quem posso compartilhar os momentos que realmente importam?"
Conexão também se constrói
Não precisamos esperar sentir falta de alguém para começar a criar vínculos.
Às vezes, a conexão começa com algo muito pequeno: aceitar um convite, mandar uma mensagem, conhecer um lugar novo ou simplesmente dizer:
"Vamos tomar um café?"
Porque uma vida independente pode continuar sendo uma vida cheia de encontros.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das grandes diferenças entre estar sozinho e sentir-se sozinho.
Fonte: Leblang, D.; Wesselbaum, D. Loneliness around the world: patterns, predictors, and well-being implications. European Journal of Epidemiology, 2026. O estudo utilizou dados do Gallup World Poll de 2023–2024, com 218.048 respostas em 148 paíse
Comentários (0)
Faça login para deixar seu comentário
Seja o primeiro a comentar!
Artigos relacionados

O Amor é como um saquinho de shá: só revela sua força na água quente
O amor que sobrevive à água quente... é o amor que fica. Mais do que palavras ou promessas, o amor se manifesta na presença, no cuidado, na capacidade de superar dificuldades e recomeçar. Sua verdadeira força não está no que promete, mas no que consegue transformar e fazer permanecer.

O medo não é seu inimigo: o que acontece quando você deixa de enfrentá-lo
O medo existe para nos proteger. Mas, quando começamos a evitar tudo o que nos assusta, ele pode deixar de ser um aliado e se transformar em uma barreira.

E se aquilo que te dá segurança também estiver te impedindo de crescer?
Às vezes, aquilo que nos dá segurança também pode nos impedir de descobrir novos caminhos. A história da “vaquinha” nos convida a olhar para aquilo que nos sustenta, mas também pode estar limitando nossas possibilidades. Nem sempre precisamos perder tudo para recomeçar: podemos começar a criar novas possibilidades enquanto ainda temos segurança. Afinal, qual é a sua vaquinha?